Ilhas do mar

quinta-feira, agosto 30, 2007

Nuvens da tarde


Aquela nuvens, que voavam,

Ninguém pode pôr-lhes mão...

São como as horas que soam,

E as aves, que em bando vão...

Como a folha desprendida,

E como os sonhos da vida,

Aquelas nuvens que voavam...


Às vezes o sol, que as doura,

Parece à glória levá-las...

Mas surge o vento e, num'hora,

Já ninguém pode avistá-las

É um convite enganoso,

Um escárnio luminoso,

Às vezes o sol que as doura!


Tantos castelos caídos!

Tantas visões dissipadas!

Gigantes, heróis perdidos,

Que mal sustêm as espadas!

Faz pena ver, lá do monte,

Nas ruínas do horizonte,

Tantos castelos caídos!


E as donzelas lastimosas,

Que vão fugindo transidas!

Quem fogem elas ansiosas?

Que buscam elas perdidas?

Ó romances figudios!

Vejo os tiranos sombrios,

E as donzelas lastimosas!


Aquelas nuves que vemos,

Esses poemas aéreos,

São os somhos que nós temos,

Nossos íntimos mistérios!

São espelhos flutuantes

Das nossas dores constantes

Aquelas nuvens que vemos...


Nessa altura vai-se com elas,

À procura, quem o sabe?

Doutras esferas mais belas,

já que no mundo não cabe...

Voando, sem dar um grito,

Através desse infinito,

Nossa alma vai-se com elas!


Antero de Quental

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